• Nuno Monteiro Pereira

8 de Abril de 2009

Foi uma óptima ideia visitar Dublin num fim de semana prolongado. Outra óptima ideia foi ir ao M.J.O'Neill

A porta principal do pub fica no nº 2 da Suffolk Street, mas o estabelecimento rodeia a esquina para Church Lane. É um dos mais antigos bares de Dublin, com mais de 300 anos. A sua decoração interior tipifica bem o espírito dos pubs irlandeses, com tons amarelados, muita madeira, espelhos pintados e muitas garrafas de álcool.

Está situado no Temple Bar, conhecido também pelo nome irlandês de Barra an Teampaill, um bairro de origem medieval, com ruas estreitas e empedradas, que é o mais importante foco cultural de Dublin, com uma intensíssima vida nocturna.

É provável que o nome do bairro seja derivado da família Temple, que ali parece ter vivido no século XVII, embora haja quem defenda que a denominação se baseou no bairro londrino com o mesmo nome.

Qualquer que tenha sido a sua origem, o nome apareceu pela primeira vez num mapa de 1673. Durante o século XIX a ocupação da área foi decrescendo lentamente e, na primeira metade do século XX, tinha muitos edifícios devolutos, encontrando-se praticamente abandonado.

Nos anos 1980, vários pequenas lojas foram alugadas por rendas baixas, o que atraiu artistas e galerias. Nessa altura, a empresa  de transportes públicos Córas Iompair Éireann propôs-se demolir a área para construir um terminal de autocarros. Protestos dos residentes e comerciantes levaram ao cancelamento do projecto e, em 1991, o governo irlandês criou uma empresa sem fins lucrativos designada como Temple Bar Properties, para promover a regeneração da área como o bairro cultural de Dublin.

Temple Bar alberga diversas instituições culturais irlandesas, incluindo o Irish Photography Centre, o Irish Film Institute, o Temple Bar Music Centre, o Arthouse Multimedia Centre e o Temple Bar Gallery and Studio. No periferia do bairro está também instalada a bolsa de valores da Irlanda e o Banco Central da Irlanda.

Após o anoitecer, Temple Bar transborda de gente, com música irlandesa por todo o lado, muitos bêbados, intenso cheiro a urina e a vomitado. Mas é isso que torna tão fantástico este bairro, único no mundo.


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  • Nuno Monteiro Pereira

28 de maio de 2010


Hoje, no Museu Municipal de Faro, descobri uma espantosa pintura, intitulada “A Zorra Berradeira”. A imagem é inquietante: mostra um monstro de aspecto terrifico e perverso. Nos seus tons descoloridos parece um pesadelo. A pintura é de Carlos Porfírio (1895-1970), homem de artes e letras, participante do movimento futurista e um dos maiores pintores contemporâneos algarvios. Para além de pintor, foi decorador, poeta, etnólogo, museólogo e cineasta. Nascido em Faro, viveu em Lisboa, Madrid e Paris. Foi director e editor do "Portugal Futurista". A Zorra Berradeira é uma das suas pinturas mais interessantes, fazendo parte de um conjunto de nove telas dedicadas às lendas algarvias, todas expostas no Museu Municipal de Faro. A besta tão magnificamente representada é uma das mais temidas entidades malfazejas do Algarve. Referenciada para os lados da Serra de Monchique, perto das margens da ribeira de Odelouca, consta que a Zorra Berradeira é a alma penada de uma velha, em vida muito má e escandalosa, que respondia a quem lhe censurava a vida: "Neste mundo cada um anda como quer, porque do outro mundo nada podemos saber". Diz-se que muita gente já ouviu os berros da zorra, sempre durante a noite, vindos dos cumes dos serros. Quem a viu ao longe descreve-a como uma cabra; de perto parece uma ave imunda, de grandes dimensões, com asas sujas e manchadas, exalando um vapor imundo e nojento. Os seus berros anunciam desgraças e maldades. Algumas pessoas já foram acometidas e lançadas ao chão pela força do seu voo rasante, antes de ir pousar num local alto onde, aos berros, atroa serros e vales. Quando alguém tem a infelicidade de ouvir ou ver a Zorra Berradeira, é certo ter desgraça em casa.

Conta Francisco Xavier de Ataíde (1842-1915), na sua obra publicada em 1898, As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve, "... em certa noite adoeceu repentinamente certa velhinha muito estimada no sítio. Chamado o médico, declarou que nada encontrava na velhinha, cujo pulso estava regular. Não é coisa de cuidado, disse-lhe o médico. É sim, senhor: morro esta noite e quero-me confessar. O médico riu-se. A velhinha confessou-se e morreu duas horas depois da confissão. Declarou antes de morrer que ouvira nessa noite a Zorra Berradeira". O mesmo autor continua "... em uma noite seguia um sujeito, forte e animoso, para sua casa, ouviu, ao longe, os berros da zorra maldita. Para provar que a não temia, arremedou-a nos berros. A Zorra, embora a enorme distância, de um salto, caiu sobre o infeliz, que tentou resistir-lhe. Qual resistir! Apesar do inimigo não ter carne, nem osso, nem barbatanas, moeu-o tão horrivelmente que, ao chegar a casa, caiu morto entre portas. Foi observado todo o corpo: não tinha a mais pequena equimose, a mais insignificante mancha ou nódoa".

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